A inédita pesquisa Liderança Feminina na Oncologia, realizada pelo Instituto Datafolha com associados da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024, traz em detalhes uma série de obstáculos encontrados pelas mulheres rumo à equidade de gênero na profissão.
Com a participação de 381 médicos oncologistas e outros profissionais da saúde de todas as regiões do país, sendo 55% do sexo feminino, a pesquisa mostra que uma em cada duas mulheres tem a percepção de ter tido menos oportunidades profissionais ao longo da vida devido ao seu gênero, enquanto que, entre os homens, essa proporção foi de um para cada dez entrevistados.
De acordo com a pesquisa, embora as mulheres sejam maioria nos seus locais de trabalho, elas ficam atrás dos homens em relação aos cargos mais elevados. As chefias de departamentos e equipes, por exemplo, são ocupadas, por homens em 68% e 62% dos casos aplicáveis, enquanto que por mulheres em 34% e 38%, respectivamente. Trinta e oito por cento dos homens entrevistados disseram exercer cargo de gerência ou liderança, contra 19% das mulheres.
Em relação à remuneração, 40% das mulheres afirmam que seu gênero teve alguma influência na definição de seus salários, enquanto que nos homens essa percepção foi de 5%.
Entre os entrevistados que têm filhos, 63% disseram dividir com seu parceiro ou parceira a responsabilidade pelo cuidado das crianças, mas 32% das mulheres informaram ser as principais responsáveis. Já entre os homens esse índice foi de 12%. Quando questionados sobre os principais desafios encontrados para progredir na carreira, 13% das mulheres citaram pressão social e preconceito cultural de gênero com relação a responsabilidades familiares e domésticas; e 12% mencionaram a licença maternidade e dificuldades no regresso ao trabalho. Nenhum homem sinalizou esses fatores.
Sessenta e um por cento das mulheres já disseram ter sofrido assedio no local de trabalho, como comentários sexuais desagradáveis, atenção indesejada e investidas impróprias, sendo que 90% delas não denunciaram, por acharem que nada seria feito, ficarem com medo de represália ou não julgarem importante o suficiente.
A percepção dos participantes da pesquisa sobre avanços na redução das disparidades de gênero é mais positiva entre os homens do que entre as mulheres: 37% deles acreditam que houve grandes ou significativos progressos na área, contra 16% das mulheres. Entre elas, 45% afirmam que houve pouco ou nenhum avanço, enquanto que nos homens esse índice foi 21%.
Mulheres na Oncologia
Ciente desses desafios pela equidade de gênero na oncologia, a SBOC tem atuado de diferentes formas. Com mais de 3 mil associados, sendo aproximadamente 50% deles mulheres, a entidade lançou em 2019 o Prêmio SBOC de Protagonismo Feminino, cujo objetivo é homenagear mulheres que se destacam na profissão; e, em 2021, criou seu Comitê de Lideranças Femininas, que tem apoiado a diretoria da Sociedade em diversas ações na área.
Nos últimos anos, a entidade tem buscado também equilibrar a quantidade de palestrantes homens e mulheres nos seus eventos, assim como na composição da Diretoria e dos seus Comitês.
“Quando pensamos em uma oncologia clínica mais equânime, precisamos reconhecer que há disparidades entre gêneros para propor ações. Nesse sentido, a pesquisa Liderança Feminina na Oncologia nos traz dados fundamentais para serem trabalhados em curto, médio e longo prazo”, avalia a Presidente da SBOC, Dra. Anelisa Coutinho.
Coordenadora do Comitê de Lideranças Femininas e Presidente Eleita da entidade (Gestão 2025), Dra. Angélica Nogueira relata não ter fi cado surpresa com os dados da pesquisa. “Em muitas situações que são meritórias, como entrar na Residência, nas provas de Mestrado ou Doutorado, a presença de mulheres é similar ou até maior do que os homens, mas em cargos que dependem de indicações e influência, a quantidade de mulheres ainda é menor”, ressalta.
A pesquisa Liderança Feminina na Oncologia foi desenvolvida a partir de um questionário da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), aplicado internacionalmente, e se enquadra em um projeto maior e com o mesmo nome, desenvolvido pela SBOC com apoio das indústrias farmacêuticas AstraZeneca, Daiichi Sankyo e MSD.
Além da pesquisa, o projeto envolveu uma série de debates virtuais para discutir o tema. A primeira discussão foi sobre assédio no ambiente de trabalho e contou com a participação especial da advogada e LinkedIn Top Voice em Equidade de Gênero Dra. Marina Ganzarolli; o segundo abordou a maternidade e teve como convidada externa a fundadora e CEO da startup Mãe-Estar, focada em saúde e bem-estar materno, Aline Pedrazzi; a terceira discutiu disparidade salarial com destaque para a participação da consultora em gestão de cultura organização Vera Regina Meinhard; e o encontro derradeiro contou com a participação de Sarah Aiosa, presidente da MSD na América Latina e mestre em Saúde Pública pela Universidade Johns Hopkins, para falar sobre síndrome da impostora.
Liderado pela Dra. Angélica Nogueira, o projeto Mulheres na Oncologia conta com o suporte das demais integrantes do Comitê de Lideranças Femininas da SBOC: Dra. Andreia Melo, Dra. Clarissa Mathias, Dra. Daniela Rosa, Dra. Daniele Assad Suzuki e Dra. Gisah Guilgen.
Em novembro, durante o XXV Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, será lançado um material inédito sobre o assunto.