Avanços e desafios da oncologia: equilibrando o alto custo das inovações e a busca por mais acesso
A oncologia vive um dos seus momentos mais revolucionários. As inovações se multiplicam em uma escala vertiginosa, trazendo a promessa de tratamentos mais eficazes e personalizados. A terapia com células CAR-T é um dos exemplos dessa evolução. Tal tratamento utiliza as próprias células de defesa do paciente, modificadas geneticamente em laboratório, para reconhecer e atacar células tumorais. Mais recentemente, um aprimoramento dessa técnica – a partir do uso de células CAR-T combinadas com um nanogel inteligente que carrega a enzima hialuronidase – expandiu esse tipo de tratamento, permitindo que as células superem a barreira dos tumores sólidos, tornando-a ainda mais promissora.
Se, por um lado, essas tecnologias representam passos significativos para a oncologia global; por outro, o alto custo das inovações levanta uma questão crucial: como garantir que sejam amplamente acessíveis?
No caso do tratamento com células CAR-T, o acesso no Brasil via sistema público, por enquanto, só está disponível em projetos de pesquisa clínica. No sistema privado, os custos podem ultrapassar os R$ 3 milhões. Não à toa, pesquisadores brasileiros já atuam na produção de CAR-T totalmente nacionais, o que agilizaria o processo e reduziria o investimento do paciente em até 80%, estima-se. É a inovação a serviço do acesso. Um dos projetos mais avançados é liderado pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Butantan, em estudo clínico de fase 1/2.
Membro do Comitê de Tumores Gastrointestinais Baixos da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dr. Rui Weschenfelder lembra que tudo que é novo tem um custo muito alto. “Imagina se a gente falasse, há 30 anos, que seria inventado e disseminado um telefone portátil, como o celular. E quando foi lançado, o custo era proibitivo”, reflete. “Será que a gente vai conseguir fazer com que as tecnologias em saúde também consigam reduzir o preço? Esse é o nosso grande desafio”, diz.
Especificamente sobre as células CAR-T, o oncologista clínico aponta que é necessário, de fato, tornar a tecnologia mais democrática para que, no futuro, o preço diminua. “Hoje, o que pode parecer inviável, talvez em alguns anos se torne acessível. Precisamos de uma multiplicidade de estratégias para que a gente consiga evoluir”, propõe.
A democratização das novas tecnologias é uma discussão perene entre especialistas. Dr. Thiago Carnier Jorge, associado SBOC em São Paulo (SP) e especialista em transformação digital, aponta que a inovação em saúde tem que ser percebida não apenas como a criação de novos recursos, mas a partir da reavaliação de como a medicina é praticada. “Inovar em saúde é abrir a cabeça e conseguir adaptar para esse mundo tudo o que a gente vê acontecendo e o que está trazendo diversos benefícios em outros setores”, argumenta.
Por muito tempo, afirma o oncologista clínico, que também é Diretor Médico e de Pesquisa e Desenvolvimento da startup We Cancer, a saúde foi um setor fechado, que aprendeu pouco com os exemplos de áreas como o varejo e a tecnologia.
“Querendo ou não, cada vez mais o nosso mundo é conectado, e mais as pessoas têm a percepção das coisas de maneira muito unitária e singular”, reflete. “Por que as empresas conseguem me entregar [um pedido] no mesmo dia e na saúde eu não consigo marcar uma consulta para o mesmo dia?”, questiona. “Por que a gente tem técnicas de monitorização à distância para diversas coisas e na saúde ainda é mais do que necessário uma consulta presencial?”, completa Dr. Thiago.

Coordenador do Comitê de Tecnologia e Inovação da SBOC, Dr. Pedro Henrique Araújo de Souza chama atenção para o uso frequente da inovação em saúde como suporte à educação médica. “Hoje, os meios de autoaprendizado por parte dos residentes de medi
cina é enorme. Eles têm acesso à informação de forma muito mais rápida do que tive na minha formação”, compara o oncologista de 52 anos de idade.
Dr. Pedro Henrique exemplifica sua análise: um trabalho é apresentado no Encontro Anual da ASCO (a Sociedade Americana de Oncologia Clínica) e publicado em um periódico importante no mesmo dia. “Os acadêmicos e residentes podem ler um artigo que, potencialmente, muda o tratamento dos pacientes no mesmo dia em que é apresentado e publicado”, declara.
A necessidade de discussão sobre como a inovação pode contribuir para ampliar o acesso da população ao que existe de melhor na oncologia acabou por motivar a Comissão Científica do XXVI Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica a escolher o tema “Inovação a serviço do acesso” como eixo central do evento.
A presidente da SBOC, Dra. Angélica Nogueira, e o presidente da Comissão Científica do Congresso SBOC, Dr. William William, explicam que essa decisão reflete a necessidade urgente de conciliar os avanços tecnológicos com a realidade dos sistemas de saúde no Brasil.
“Estamos vivenciando uma era de descobertas incríveis, com terapias que transformam o prognóstico de muitos pacientes. No entanto, o desafio de tornar essas tecnologias amplamente disponíveis é o nosso próximo grande passo”, explica Dra. Angélica. “O Congresso SBOC será a plataforma para que a comunidade oncológica brasileira discuta a construção de caminhos para garantir mais acesso”, pontua.
Também diretor da SBOC, Dr. William William complementa, destacando que a programação do evento foi cuidadosamente estruturada para abordar esse equilíbrio. “Nosso objetivo é que, ao final do Congresso, tenhamos não apenas um panorama dos avanços, mas também alternativas para democratizar a oncologia no país.”
Entre as mesas que abordarão o tema, a programação inclui sessões sobre avaliação de tecnologias e custo-efetividade, acesso a testes genéticos, teleoncologia no sistema público, integração de sistemas de informação em oncologia, chatbots, assistentes virtuais de suporte ao paciente, inteligência artificial, entre outras.
Para Dr. Thiago Jorge, a inovação pode trazer mais acesso, mas para isso é preciso mudar a maneira de pensar. “É isso, por exemplo, que a inteligência artificial (IA) traz. Com ela, talvez a gente consiga suplantar os preconceitos de como o mundo funciona e ter novas ideias e novas maneiras de avançar.”
Ele cita o exemplo do AlphaZero, um algoritmo de xadrez desenvolvido pela ferramenta de IA Google DeepMind. Ao contrário de outros programas, o AlphaZero nunca foi treinado por humanos. Recebeu apenas as regras e aprendeu sozinho, jogando contra si mesmo. Os resultados foram jogadas que desafiaram a lógica humana, mostrando que a inovação muitas vezes exige uma mudança de paradigma.
Dr. Pedro Henrique acredita que a inovação também pode ajudar a otimizar os recursos financeiros para a saúde. Ele sugere que, com o acesso à informação que mencionou, é possível entender quais pacientes se beneficiarão mais de um tratamento e até que ponto. Esse conhecimento poderia ser acoplado à forma de financiamento, como já acontece com medicações para doenças genéticas no Sistema Único de Saúde (SUS).
Nesse modelo, que reúne dados de mundo real e analisa desfechos, o pagamento por um tratamento depende do resultado. “Se tiver o resultado esperado, o SUS paga um valor maior; se não tiver, paga menos. Isso tudo depende de capturar informação”, explica o especialista.
Outro ponto fundamental sobre proporcionar mais acesso à inovação, segundo o Dr. Pedro, é o fortalecimento da pesquisa clínica. Ele acredita que, com a expansão de centros de pesquisa em serviços públicos e privados, o país terá mais estudos de tratamentos inovadores, que poderão ser oferecidos a pacientes gratuitamente e com melhores chances de desfechos positivos.
Nem sempre a inovação que garante o acesso de mais pessoas tem relação com uma tecnologia de alto custo. Exemplos práticos disso já estão em andamento. Dr. Thiago Jorge conta sobre uma iniciativa de sua startup para melhorar o rastreamento de carcinoma hepatocelular e conscientizar sobre a cirrose como fator de risco.

Em vez de usar abordagens tradicionais, a campanha “Se Meu Fígado Falasse” utilizou uma linguagem jovial e de marketing para engajar as pessoas. Com um questionário on-line simplificado, acessível para o público leigo, eles começaram a monitorar a resposta de possíveis pacientes. Caso o indivíduo tivesse diversos fatores de risco, um enfermeiro, de maneira proativa, entrava em contato para uma teleconsulta e, depois, encaminhava para um médico de família, que iria julgar a necessidade de ultrassom.
“Fizemos tudo isso com telemedicina. E o ultrassom marcávamos no local mais próximo da casa do paciente, com apoio da indústria farmacêutica, que concedia vouchers para usarmos na campanha”, lembra. “A gente criou um funil e, em pouco tempo, conseguimos melhorar o rastreamento de carcinoma hepatocelular. Suprimos diversas barreiras por meio de comunicação e organização da jornada digital”, adiciona.
Para Dr. Pedro Henrique, o Hospital de Amor de Barretos, no interior de São Paulo, é um dos maiores exemplos de inovação no país, especialmente por seu programa de rastreamento organizado, que leva unidades móveis até a população da região, realizando exames de câncer de mama e de colo de útero. Ele, que passou quatro anos na instituição, percebeu o impacto direto: “Ao levar o rastreamento até onde a mulher está, de forma inovadora, a gente tinha muito mais pacientes em estágios iniciais de câncer de mama e colo uterino na unidade”.
Ele também reforça a relevância que a telemedicina tem ganhado atualmente. “A ferramenta avançou significativamente, permitindo que regiões sem especialistas recebam o conhecimento de centros de referência”, argumenta. “Através de interconsultas, médicos e pacientes podem se conectar a oncologistas especializados em tumores específicos, levando conhecimento a todos os lugares que antes não tinham acesso”, finaliza.
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União em prol da oncologia latino-americana
Uma nova articulação regional de oncologia está em formação. Diversos representantes das Sociedades de oncologia clínica da América Latina foram convidadas ao Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica de 2023, quando um princípio de parceria foi endereçado pelos presentes.
Um ano depois, no Congresso SBOC 2024, evidenciando a necessidade dessa parceria e o reconhecimento mútuo de que esta rede é importante para os especialistas locais, foi realizada uma joint session entre SBOC e lideranças da Sociedad Chilena de Oncología Médica (SCOM), da Sociedad de Oncología Médica y Pediátrica del Uruguay (SOMPU) e da Sociedad Paraguaya de Oncología Médica (SPOM).
Entre um momento e outro, foram realizadas reuniões virtuais e presenciais, como no ESMO Summit Latin America, realizado em março de 2024 pela SBOC e a European Society for Medical Oncology (ESMO), e nos Congressos da própria ESMO e da American Society of Clinical Oncology (ASCO).
“Essa aproximação foi solidificada em 2024. O nosso objetivo, neste primeiro momento, foi nos conhecermos um pouco mais. Por isso, realizamos um levantamento para entender a demografia da oncologia nestes países e apresentamos os resultados preliminares durante o Congresso”, explica a agora Presidente de Honra da SBOC, Dra. Anelisa Coutinho, que exerceu o cargo de Presidente em 2024.
Também foi estimulado, neste momento, um intercâmbio entre os líderes da região, com participação em eventos e congressos uns dos outros. Em novembro último, por exemplo, Dra. Anelisa representou a SBOC no 18o Congresso Uruguaio de Oncologia, realizado em Montevidéu.
Para formalizar a união, foi produzido um acordo de intenções de colaboração para fortalecimento da oncologia clínica na América Latina, já assinado por representantes de nove países. O documento estabelece compromissos de atuação em: troca de experiências; educação continuada; políticas públicas; encontros periódicos; divulgação de eventos; elaboração de guias de recomendação; e elaboração de estudos demográficos e epidemiológicos.
Segundo Dra. Angélica Nogueira, Presidente da SBOC, a ampliação dessa cooperação é uma das pautas prioritárias da gestão neste ano. “A América Latina é uma região com marcadas heterogeneidades, mas os países têm importantes denominadores comuns que merecem análise e possível direcionamento conjunto. A articulação entre as Sociedades tem potencial de impacto amplo”, afirma.
“O intercâmbio com as Sociedades é muito rico e há muitas linhas de trabalho que podem se cristalizar. Temos muitas expectativas de formar uma coordenação institucionalizada e realizar alguns projetos, bem como de organizar encontros juntos”, comenta Dra. Laura Vera, presidente da SOMPU.
Lideranças da oncologia na América Latina firmam primeiros passos da parceria.
Primeiras iniciativas
Algumas das ações coletivas já estão em andamento. No Congresso, foram apresentadas versões preliminares de dois guias latino-americanos – com conteúdo em português e espanhol – destinados aos oncologistas da região. Os documentos foram feitos com base nas Diretrizes SBOC e versam sobre diagnóstico e tratamento de câncer de colo uterino e gástrico. Em breve, as versões finais serão disponibilizadas virtualmente.
Dra. Andréia Melo, coordernadora do Comitê de Tumores Ginecológicos, coordenou o de câncer de colo uterino. A elaboração, segundo a especialista, foi feita em conjunto a partir de encontros virtuais para discutir o conteúdo científico. “Traduzimos o material e discutimos e revisamos o guia, trazendo o que é necessário ao tratamento da doença, respeitando as peculiari- dades de cada país”, detalha.
Em seu entendimento, apesar dos países da América Latina terem muitas diferenças, inclusive étnico-raciais, há uma semelhança quando a questão é a incidência deste e outros tumores, que têm métodos de prevenção, rastreio e diagnóstico precoce. “Além disso, também nos une a dificuldade de acesso a uma boa estrutura de radioterapia e imunoterapia, algo fundamental para o tratamento desta neoplasia”, adiciona.
Representantes voltam a se reunir durante a ASCO 2024.
Realidades locais
A estrutura para o tratamento oncológico foi justamente um dos pontos investigados no levantamento sobre as realidades locais. O questionário on-line foi respondido pelos presidentes das Sociedades de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Venezuela, Uruguai, Paraguai e Peru.
Deste universo, apenas argentinos, chilenos, costa-riquenhos e uruguaios enxergam que os tratamentos com radioterapia respondem às demandas nacionais. Em relação à cirurgia robótica no tratamento oncológico, o acesso é limitado em todos os países e se dá principalmente no setor privado – na Bolívia, a tecnologia não é utilizada.
O uso de imunoterapia também é restrito e majoritariamente privado, mas há algumas peculiaridades. No Chile, por exemplo, o acesso é universal, mas apenas em algumas patologias, como melanoma e câncer de pulmão mais avançados. A Costa Rica também oferece no sistema público para alguns tumores específicos. Enquanto na Bolívia, praticamente não é oferecida no sistema público. Já os testes moleculares são, no geral, financiados por redes privadas e parcerias com indústrias farmacêuticas em todos os países contemplados no levantamento.
A América Latina é uma região com marcadas heterogeneidades, mas os países têm importantes denominadores comuns que merecem análise e possível direcionamento conjunto. A articulação entre as Sociedades tem potencial de impacto amplo.
Em termos de organização do estado para tratar do câncer, apenas Brasil, Peru, Uruguai, Paraguai e Chile têm planos nacionais sobre o tema, embora os dois últimos sirvam apenas para alguns tumores. A Bolívia está, neste momento, elaborando um
plano nacional.
Na análise epidemiológica, como foi indicado, o cenário é próximo entre todos os países. Tumores de colo do útero, de mama e de próstata são os mais comuns em seis das nove nações. Na Argentina e no Uruguai, sai o câncer de colo do útero e entra o de pulmão. Já no Peru, o terceiro mais recorrente é o câncer de cólon.
Em números de associados, a SBOC é a mais representativa, com com cerca de 3.400 membros. A Asociación Argentina de Oncología Clínica (AAOC) tem cerca de 1.200, enquanto as entidades dos demais países variam entre 40 e 400 participantes. Uma tendência é que a média de idade destes membros é menor do que 50 anos em todos os países, evidenciando que esta é uma especialidade com forte presença de jovens.
A distribuição de gênero dos especialistas também apresenta convergência. Os homens são maioria apenas no Chile. No Brasil e no Peru, há uma divisão igualitária. Nos demais países, as mulheres são a maioria, atingindo o maior índice de representação na Bolívia, onde são 60% dos profissionais.
O intercâmbio com as Sociedades é muito rico e há muitas linhas de trabalho que podem se cristalizar. Temos muitas expectativas de formar uma coordenação institucionalizada e realizar alguns projetos, bem como de organizar encontros juntos.
No campo da educação, Brasil e Uruguai, deste conjunto de países, são os únicos nos quais não é obrigatória a residência em oncologia clínica para atuar na especialidade. Por outro lado, para obter um Título de Especialista, é preciso ser aprovado em um exame em todas as nações. Enquanto no Brasil são cerca de 230 vagas em residência todos os anos, há países como Costa Rica, Bolívia e Uruguai, que oferecem de 5 a 7 postos anuais.
Apesar das realidades entre os países serem notadamente distintas, as entidades, como detalha o acordo de colaboração assinado por elas, pretendem se unir para fortalecer a oncologia clínica latino-americana em conjunto, utilizando os achados neste levantamento como ponto da partida para as próximas ações.
Em relação às políticas públicas na especialidade, por exemplo, as Sociedades entendem que a influência das normas e leis é crucial para o avanço oncológica. Sendo assim, é um dos objetivos que haja uma articulação para contribuir ativamente na formulação e implementação de políticas que promovam o acesso equitativo e de qualidade aos serviços oncológicos na região.
Em Barcelona, presidentes das Sociedades reiteram o interesse coletivo na aproximação das entidades.
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