Satisfeitos com a carreira, mas atuando sob estresse
Primeiro Censo SBOC da Oncologia Clínica traz detalhes sobre a atuação do oncologista clínico brasileiro
Mais da metade dos oncologistas clínicos associados à Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) lidam com uma carga relevante de estresse em suas rotinas profissionais. Se considerarmos até pequenos níveis de estresse do dia a dia, mais especialistas se dizem afetados: 85%. Apenas 15% afirmam não sofrer desse problema. Essas são algumas observações do primeiro Censo SBOC da Oncologia Clínica, realizado em parceria com o Instituto Datafolha e apresentado no XXIV Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica. De abrangência nacional, a pesquisa recolheu respostas online de 761 oncologistas clínicos associados à SBOC com atuação em mais de 200 municípios de todas as regiões do país.
Em relação ao estresse demonstrado na pesquisa, há nuances a serem destacadas. Apesar da rotina estressante, dois a cada três oncologistas clínicos participantes (65%) se disseram plenamente satisfeitos com suas carreiras, enquanto apenas 5% apontaram insatisfação. Independentemente do local ou regime de trabalho, tais como pessoas jurídicas, concursados e celetistas, o Censo não apresentou diferença substancial nos níveis de estresse. O problema, porém, é mais acentuado entre as mulheres: 60% delas se disseram estressadas, enquanto que nos homens o índice foi de 50%.
Idealizador do Censo e Presidente da SBOC durante a execução e divulgação da pesquisa, Dr. Carlos Gil Ferreira, ressalta que as informações obtidas servirão de base para a entidade preparar uma série de ações estratégicas. “Serão iniciativas voltadas à rede que impacta a atuação profissional daqueles que estão na linha de frente do controle do câncer em todo o território nacional”, afirma.

Obstáculos estruturais influenciam
Tais dados sobre a saúde mental dos oncologistas clínicos brasileiros precisam ser mais aprofundados, dada a subjetividade do tema, mas a literatura científica aponta para um cenário preocupante quando se tratam de profissionais da oncologia em outros países. De acordo com a pesquisa Medscape National Physician Burnout and Suicide Report, 42% dos oncologistas clínicos nos Estados Unidos relataram, em 2019, sofrer da síndrome de esgotamento profissional, o burnout, sendo que 18% se autodeclararam deprimidos e 22% já tiveram ideias suicidas.
“A correlação não é direta, mas alguns recortes da pesquisa sugerem que o estresse pode estar, de alguma forma, ligado às condições estruturais do sistema de saúde brasileiro e com os obstáculos que os oncologistas têm de lidar na sua atuação profissional”, comenta Dra. Aline Lauda, integrante do grupo da Diretoria da SBOC responsável pela realização do Censo.
Segundo a pesquisa, dificuldade de acessar novos medicamentos (54%), alto custo dos tratamentos (46%) e o subfinanciamento e/ou a gestão ineficiente dos sistemas de saúde (36%) estão entre os maiores desafios dos oncologistas clínicos.
Os participantes do Censo também se queixaram de deficiências na incorporação de novas tecnologias (21%), falta de estrutura para tratamento humanizado, integral e individualizado (20%), deficiências no acesso e qualidade de exames (19%), burocracia na aprovação de protocolos regulatórios de pesquisas clínicas (15%), lentidão no tratamento e acompanhamento dos pacientes (5%) e falta de campanhas e/ou programas eficientes de conscientização e prevenção (5%).
Público vs Privado
No sistema público, 36% dos oncologistas participantes da pesquisa informaram ter acesso parcial a novas tecnologias oncológicas e 44% disseram que seus pacientes têm acesso a elas apenas por meio de judicialização. No serviço privado, a judicialização cai para 2%; e 58% dizem ter acesso parcial a novas tecnologias.
Em relação a outros recursos, no sistema público, 10% indicaram que onde atuam não há acesso à radioterapia ou isso se dá somente depois de 60 dias do início do tratamento. A falta ou atraso no acesso à cirurgia oncológica na rede pública é de 16%; de cuidados paliativos, 14%; e de tumor board, 26%.
Na rede privada, a diferença no acesso a esses serviços é grande. Somente 2% indicaram que não há (ou há com atraso) acesso para radioterapia ou cirurgia oncológica. Para cuidados paliativos, 7% indicaram, e para tumor board, 11%.
Os diagnósticos tardios de câncer, por sua vez, foram lembrados por 42% como uma preocupação entre aqueles que atuam, integralmente ou na maior parte do tempo, no serviço público. Na parcela de entrevistados que atuam, majoritariamente ou somente, no serviço privado, esse índice cai para 26%.
Outra reclamação comum é o excesso de demanda por WhatsApp, sendo mais frequente (35%) entre os que atuam principalmente no serviço privado do que no serviço público (18%).
Diferenças regionais
A divisão por localidades geográficas apresenta novas dimensões aos dados demonstrados pelo Censo. Profissionais das cidades do interior do Brasil, por exemplo, sofrem mais com a dificuldade no acesso a novos medicamentos, com um índice de 62% (a média é de 54%).
O excesso de mensagens via WhatsApp, por sua vez, é menos comum entre aqueles que atuam no interior (18%) do que entre os que atuam nas capitais e regiões metropolitanas (35%). A questão também parece ser mais relevante para os oncologistas clínicos no Nordeste, onde 42% indicaram esse problema, enquanto a média nacional ficou em 20%.
Perfil majoritário do oncologista clínico


De maneira geral, o Censo SBOC demonstrou que há uma divisão igual em relação aos gêneros dos oncologistas clínicos associados (50% homens e 50% mulheres), a maior parte deles está na casa dos 40 anos de idade, vive no Sudeste, é casada, tem filhos e se autodeclara católica.
Entre homens e mulheres, porém, há uma diferença ao se debruçar sobre a faixa etária. Mais da metade (55%) das mulheres têm até 39 anos, enquanto os homens têm média de idade de 46 anos.
Quanto ao ambiente de trabalho, a maioria dos oncologistas clínicos associados à SBOC atua predominantemente no setor privado, com 38% somente nesse segmento e 32% também na rede pública, embora atuem principalmente na rede particular. Na iniciativa privada, 90% atuam como pessoa jurídica (PJ), enquanto no serviço público, 50% são contratados ou atuam nessa categoria, 26% sob regime de CLT e 14% de estatutários.
Ainda segundo o Censo, 81% dos oncologistas clínicos associados à SBOC são brancos, 16% pardos, 2% amarelos e 1% pretos. Em relação à orientação sexual, 94% se declaram heterossexuais, 4% gays, 1% lésbicas e outro 1%, bissexuais.
Esses dados são descortinados enquanto a SBOC se prepara ainda mais para lidar com a pluralidade dos profissionais que representa. Em 2023, foram criados os comitês de Diversidade, de Jovens Oncologistas, de SUS e Práticas Independentes, elevando para 22 a quantidade de Comitês SBOC, dos quais participam 107 associados de dez estados brasileiros. A cada ano, o Comitê de Lideranças Femininas da entidade também tem se fortalecido. Todos esses esforços têm o objetivo de tornar a oncologia clínica brasileira ainda mais diversa, democrática e representativa.
A entidade também tem trabalhado para aumentar a sua capilaridade, por meio dos representantes regionais. Hoje, 54% dos associados estão concentrados no Sudeste. Outras localidades com muitos profissionais são o Nordeste (18%) e o Sul (17%). No Centro-Oeste estão 9% dos oncologistas clínicos, enquanto no Norte, 3%. A maioria desses profissionais (70%) mora em capitais e regiões metropolitanas, enquanto 29% estão no interior do país.
Não associados
A pedido da SBOC, o Datafolha também coletou informações de 50 oncologistas clínicos não associados, o que não representa de forma ampla esse público. Entre os dados, porém, chama a atenção algumas diferenças em comparação aos associados.
Enquanto a maioria (63%) dos associados SBOC se formou em universidades públicas, entre os não associados a maioria (62%) se formou em universidades privadas.
O grau de satisfação com a carreira na especialidade variou entre os dois públicos. Estão satisfeitos 57% dos não associados; nem satisfeitos nem insatisfeitos, 29%; e insatisfeitos, 14%. Entre os associados, os números são, respectivamente, 65%, 27% e 8%.

Luciana Chong, Dra. Aline Lauda, Dr. Carlos Gil Ferreira e Dra. Maria Ignez Braghiroli durante o lançamento do Censo no XXIV Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica.

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