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SBOC REVIEW

De-escalonamento no tratamento de câncer de mama inicial HER 2 positivo (HELEN-006)

Resumo do artigo:

O estudo HELEN-006 é um ensaio clínico de fase 3, multicêntrico e randomizado, que avaliou a estratégia de de-escalonamento no tratamento neoadjuvante de pacientes com câncer de mama HER2 positivo (HER2+) em estágio inicial. Tendo como desfecho primário a resposta patológica completa (RCp) – definida como ausência de doença invasiva residual na mama e nos linfonodos ipsilaterais ressecados, o estudo incluiu pacientes com câncer de mama invasivo em estágio II-III (T1 e N1-3 ou T2-4 e N0-3), HER2+ (HER2 3+ ou HER2 2+ com amplificação por FISH), candidatas à cirurgia.

A população analisada no estudo foi composta por mulheres asiáticas, com idade mediana de 50 anos, 73% com comprometimento linfonodal e 58% com positividade dos receptores hormonais (RH). As participantes foram randomizadas para receber tratamento neoadjuvante com nab-paclitaxel (125 mg/m² nos dias 1, 8 e 15) a cada 3 semanas por 6 ciclos ou com docetaxel (75 mg/m²) e carboplatina (AUC 6), ambos administrados no dia 1 a cada 3 semanas por 6 ciclos. Em ambos os grupos, o tratamento foi associado ao trastuzumabe (dose inicial de 8 mg/kg, seguida por manutenção de 6 mg/kg no dia 1) e pertuzumabe (dose inicial de 840 mg, seguida por manutenção de 420 mg no dia 1) a cada 3 semanas. A randomização foi estratificada pelo estágio clínico, status linfonodal e status dos RH.

Na análise primária, o estudo demonstrou que a combinação com nab-paclitaxel resultou em uma maior taxa de RCp em comparação com a combinação com docetaxel e carboplatina. Entre as 669 mulheres que receberam pelo menos uma dose de medicação conforme o protocolo, 220 de 332 pacientes (66,3%) no grupo nab-paclitaxel atingiram RCp, contra 194 de 337 pacientes (57,6%) no grupo docetaxel e carboplatina (odds ratio combinada: 1,54; IC 95%: 1,10 – 2,14; p = 0,011). Em uma análise exploratória de subgrupos pré-definida, o esquema com nab-paclitaxel aumentou significativamente a taxa de RCp em comparação com o tratamento padrão no subgrupo de pacientes HER2 positivo com RH negativos (RCp 86% vs. 70,1%; p = 0,0010). No subgrupo de pacientes HER2 positivo com RH positivos, o aumento na taxa de RCp com nab-paclitaxel não foi estatisticamente significativo.

Os desfechos secundários do estudo incluíram tempo livre de eventos (definido como progressão durante a neoadjuvância, recorrência da doença ou morte por qualquer causa), tempo livre de doença invasiva, além de segurança e tolerabilidade. No entanto, devido à imaturidade dos dados, com um seguimento mediano de 26 meses, os resultados de sobrevida serão reportados futuramente.

Com drogas com perfil de toxicidade já conhecidos, os eventos adversos de grau 3-4 mais comumente reportados foram náuseas (7% vs. 23%) e diarreia (8% vs. 16%), ambas mais frequentes no grupo docetaxel e carboplatina, enquanto neuropatia foi mais prevalente no grupo nab-paclitaxel (13% vs. 2%). Eventos adversos graves foram reportados em apenas 3% dos participantes (1% no grupo nab-paclitaxel e 2% no grupo docetaxel e carboplatina), sem nenhum evento de grau 5 relacionado ao tratamento.

O estudo HELEN-006 demonstrou que, em pacientes com câncer de mama HER2+ em estágio inicial, o de-escalonamento do tratamento neoadjuvante, por meio da associação de nab-paclitaxel ao duplo bloqueio HER2, resultou em maiores taxas de RCp em comparação com a associação com docetaxel e carboplatina, sugerindo potencial vantagem na estratégia, com perfil de toxicidade favorável para essa população.

 

Comentário do avaliador científico:

A terapia anti-HER2 transformou o tratamento do câncer de mama HER2+, melhorando os desfechos brutos. No contexto neoadjuvante, a adição de pertuzumabe e trastuzumabe à quimioterapia está associada a um aumento nas taxas RCp, fator prognóstico relevante nessa população.

Visando reduzir a toxicidade do tratamento sem comprometer a sua eficácia, estratégias de de-escalonamento têm sido exploradas. Neste contexto, o estudo HELEN-006 avaliou a substituição de docetaxel e carboplatina por nab-paclitaxel, associado ao duplo bloqueio HER2, no cenário neoadjuvante. O regime com nab-paclitaxel mostrou taxas superiores de RCp, sugerindo um potencial benefício clínico, especialmente na população HER2+/RH-, uma vez que a positividade de RH mostrou produzir RCp menores em vários estudos.

Algumas limitações do estudo inclui a escolha do desfecho primário. Apesar da RCp estar relacionada a melhor prognóstico, não é possível quantificar a tradução da diferença de CRp em ganho de sobrevida neste estudo. Além disso, o estudo foi conduzido exclusivamente na China, sendo que sabidamente populações asiáticas possuem perfil de toxicidade e a eficácia que podem distinguir das populações ocidentais.

Seguindo estratégias de de-escalonamento, estudos de fase 2 já investigam o uso da resposta precoce ao PET-CT para guiar estratégias menos intensivas, incluindo regimes livres de quimioterapia, sinalizando um futuro mais personalizado, com melhores perfis de toxicidade no tratamento do câncer de mama HER2+.

 

Citação: Chen XC, Jiao DC, Qiao JH, et al. De-escalated neoadjuvant weekly nab-paclitaxel with trastuzumab and pertuzumab versus docetaxel, carboplatin, trastuzumab, and pertuzumab in patients with HER2-positive early breast cancer (HELEN-006): a multicentre, randomised, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2025 Jan;26(1):27-36. doi: 10.1016/S1470-2045(24)00581-3

 

Avaliador científico:

Dra. Camila Kelly Chiodi

Oncologista clínica pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre/RS

Oncologista clínica no Grupo Oncoclínicas da Bahia – Salvador/BA.

Fellow em pesquisa clínica e translacional junto ao grupo de survivorship e câncer de mama do Instituto Gustave Roussy

Instagram: @camilakchiodi

Cidade de atuação: Salvador/Bahia