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SBOC REVIEW

Extrato Oral de Cannabis para Prevenção Secundária de Náuseas e Vômitos Induzidos por Quimioterapia: Resultados Finais de um Trial Randomizado, Placebo-Controlado, Fase II/III

Resumo do artigo:

Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia (NVIQ) são complicações temidas pelos pacientes, além de estarem associadas com pior qualidade de vida e redução da adesão ao tratamento quimioterápico. Os corticosteroides, os antagonistas da 5-hidroxitriptamina (5-HT3) e os antagonistas da neurocinina-1 (NK-1) estão presentes nas diretrizes vigentes para profilaxia de NVIQ e, comprovadamente, mitigam o quadro de NVIQ em muitos pacientes. Entretanto, aproximadamente um terço dos mesmos reporta quadro de náuseas refratário a despeito do uso das medicações supracitadas.

O mecanismo patológico responsável pelo quadro clínico de NVIQ perpassa por uma rede complexa de vias ligadas aos receptores de serotonina, dopamina, substância P e o receptor canabinoide CB1. Dessa forma, a compreensão do papel do receptor canabinoide em NVIQ, e as observações empíricas dos efeitos da Cannabis, levaram a testes iniciais de tetrahidrocanabinol (THC) e canabinoides sintéticos com resultados positivos no controle de NVIQ, estimulando o desenvolvimento de estudos mais robustos nesse cenário.

O objetivo deste estudo randomizado, controlado por placebo, de fase II/III, foi determinar a eficácia do extrato oral de Cannabis (THC:CDB) em adultos com náuseas e vômitos Induzidos por quimioterapia endovenosa de moderado a alto potencial emetogênico, refratários às medicações antieméticas recomendadas pelas diretrizes vigentes.

Os pacientes foram randomizados, em uma proporção 1:1, para receberem cápsulas orais de tetrahidrocanabinol (THC) 2,5 mg associadas à canabidiol (CBD) 2,5 mg ou cápsulas de placebo, tomados três vezes ao dia, do dia -1 (dia anterior à quimioterapia) ao dia 5, concomitantemente às medicações antieméticas consistentes com as diretrizes.

A principal medida de eficácia foi a diferença nas proporções de participantes com resposta completa (sem vômitos ou náuseas e sem uso de resgate medicamentoso antiemético) durante as horas 0-120 após o primeiro ciclo de quimioterapia em estudo (ciclo A).

Foram avaliados 147 pacientes, entre 2016 e 2022, com média de idade de 56 anos. Sessenta e cinco por cento da população estava em vigência de tratamento quimioterápico curativo, sendo 53% dos casos com alto potencial emetogênico e 47% com moderado potencial emetogênico. Quanto à medicação profilática antiemética, 97% da população estava em uso de corticosteroide e antagonista de 5-HT3, 80% em uso de antagonista de NK-1 e 10% em uso de olanzapina.  

Como resultado, THC:CDB, comparado com o placebo, obteve maior taxa de resposta completa (24% vs 8%, com uma diferença absoluta de 16%, IC 95%, 4 a 28 e P = 0,01) com efeitos semelhantes para o não uso de medicações de resgate (28% vs 9%, IC 95%, P = 0,01) e a ausência de náuseas significantes (20% vs 7%, IC 95%, P= 0,03). O número de vômitos diários e os scores para náuseas também demonstraram melhores desfechos no grupo intervenção (THC:CDB).

Quanto aos eventos adversos, houve maior percentual de sedação (18% vs 7%), tontura (10% vs 0%) e ansiedade transitória (4% vs 1%) no grupo intervenção. Porém, é importante ressaltar que os eventos adversos graus 3 e 4 foram reportados com a mesma frequência entre o grupo THC:CDB e o grupo placebo.

Concluindo-se, a formulação oral de THC:CDB apresenta-se como um adjuvante eficaz como profilaxia antiemética nos casos de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, com aumento dos eventos adversos como sedação e tontura, porém sem o aumento dos eventos adversos sérios.

 

Comentários da avaliadora científica:

O extrato oral da Cannabis (THC:CDB) apresenta-se como uma nova opção terapêutica eficaz no tratamento de NVIQ. Inclusive, contextualizando o estudo em questão com estudos prévios randomizados que comparavam antieméticos com placebo, o aumento absoluto de 16% de resposta completa é superior ao aumento absoluto de 10% considerado suficiente para alterar as recomendações das diretrizes vigentes. Além disso, dentro dos limites de comparações entre ensaios com desenhos heterogêneos, o aumento absoluto de 16% obtido com o extrato oral de Cannabis equipara-se aos valores absolutos obtidos nos últimos estudos com aprepitanto (13%, P = 0,001) e olanzapina (15%, P = 0,02) versus placebo nesse mesmo cenário.

Porém, existem importantes barreiras ao uso rotineiro do extrato oral de Cannabis na prática clínica. Dentre eles, encontra-se seus eventos adversos, principalmente, a sedação e a tontura, além da restrição à direção automotiva, exigida com o uso da medicação. Além disso, existem impasses culturais, legais e financeiros relacionados ao uso dos canabinoides.

Dessa forma, faz-se necessário uma maior quantidade de estudos randomizados, placebo controlados, avaliando formulações alternativas de canabinoides no intuito de reduzir seus eventos adversos e sua toxicidade financeira. Soma-se a isso a necessidade de ensaios de sequenciamento terapêutico, combinação dos canabinoides com outros antieméticos e sua comparação direita com os demais antieméticos vigentes.

 

Citação: Grimison P, Mersiades A, Kirby A, et al. Oral Cannabis Extract for Secondary Prevention of Chemotherapy-Induced Nausea and Vomiting: Final Results of a Randomized, Placebo-Controlled, Phase II/III Trial. J Clin Oncol. 2024 Dec;42(34):4040-4050. doi: 10.1200/JCO.23.01836.

 

Avaliadora científica:

Dra. Amanda Mouriño de Faráco

Oncologista Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – Ribeirão Preto/SP

Oncologista Clínica Titular na Unimed Sul Mineira – Pouso Alegre/MG

Título de Especialista em Oncologia Clínica pela SBOC/AMB

Instagram: @amandamfaraco

Cidade de Atuação: Pouso Alegre/MG.